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sábado, 1 de maio de 2010

Volver



Não consegui ficar imune. Tem coisas que mexem com a gente e compartilhar é preciso.
Assisti hoje, pela primeira vez um filme do Almodóvar. Já estive por diversas vezes com alguns nas mãos, mas sempre acabava em duvida..será? Até porque sempre ouvir falar (e hoje confirmo) que os filmes do Almodóvar ou se ama, ou se odeia. Eu definitivamente fico do lado de quem ama.
Eu saí à procura de: Tudo Sobre Minha Mãe, mas por ser feriado, encontrei poucas locadoras abertas. A única que encontrei tinha um único filme do diretor: Volver.
Meio desconfiada peguei, numas de:”vamos ver qual é”, e na pior das hipóteses dormirei no meio.
Ledo engano. O filme é lindo, sutil, denso, dramático, tragi-cômico e feminino até o útero. Uma pintura. Uma tentadora possibilidade de voltar, como o próprio nome sugere e que nos faz pensar em como seria se ganhássemos esse presente da vida. Poder retomar lá atrás o que deixou de ser feito. As desculpas que nunca foram pedidas, as revelações que nunca foram feitas, os fantasmas que não matamos, o passado que nunca enterramos. E de lá, resgatar para o presente os que ficaram, os que perdemos, os que queríamos conosco.
Chorei, evidente. Fez lembrar-me de minha avó materna, nos domingos inúmeros que passei em sua casa e que ela esperava-nos com a mesa farta: pastéis feitos na hora (os mais deliciosos que já comi na vida), potinhos de compota, “chimia”, café com leite aconchegante.
Saudade dos almoços regados a churrasco, de colher bergamota no pé, de deitar na rede...
Quis voltar lá e trazê-la de volta. Dar os abraços que não dei, os beijos que não valorizei. Saudade de tê-la por aqui para saber que a neta dela cresceu, que construiu uma vida, uma família...
Enfim, me permiti sentir saudade e ter a certeza que definitivamente o que se leva da vida, são momentos.

Então tá.

domingo, 25 de abril de 2010

Desde 1808


Preparando-me para a ressaca mental que me aflige antes das eleições. Embora outubro não seja amanhã, já me causa fadiga e repulsa todo aquele bla bla blá disfarçado de boas intenções e que somos obrigados a engolir de tempos em tempos.
Gostaria francamente de uma temporada de férias no período eleitoral, e que eu pudesse voltar somente depois que a lona do circo já tivesse sido desmontada.
Afinal, que diferença faz quem está lá, uma vez que eles não defendam os interesses de ninguém exceto o deles próprios?
Estou lendo 1808 Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil
.
“1808” recebeu o prêmio de melhor Livro de Ensaio da Academia Brasileira de Letras e o Prêmio Jabuti de Literatura na categoria de livro-reportagem e de livro do ano de não-ficção, e não é para menos, já que muitas das perguntas que tantos de nós cidadãos em algum momento já nos fizemos, são respondidas nesse livro. Não havia como ser diferente. Desde a colonização, nossa história já estava escrita. O que se vê hoje é uma repetição repulsiva da escola de governantes que “a corte” nos trouxe.
A diferença, é que hoje no lugar da rainha louca e do príncipe medroso, nos restou o legado da corte corrupta. Ano após ano, os personagens mudam, mas a historia é a mesma. Um roubo diário e legalizado de dinheiro, recursos, mas principalmente de dignidade cidadã.
O excelentíssimo presidente me parece aquela mãe de menores de rua que ensina a filha menor a pedir esmola no sinal. A filha trabalha, mas é a “mãe” quem manda no negócio. Lula a mãe, Dilma a filha arrecadando votos. Patético.
Não tenho candidatos, não vejo um sequer que possa se dizer: Este cara leva jeito, é um administrador, pragmático, pensa do alicerce para cima, pois é assim que tem de ser.
Enquanto saúde, educação e segurança não forem pensadas e feitas com seriedade isso tudo não passa de um circo montado para a grande massa de manobra se distrair enquanto deposita seu voto na Urna. E como isso na minha esgotada e humilde opinião está a anos luz de ser levado a serio pelo governo, lamento: Abstenho-me de opiniões políticas. Afinal não se pode lutar quando não se acredita nos seus “soldados”.
Confesso que até mesmo aquele papo de que o voto é nosso único instrumento da democracia me causa estafa. Cansei, não quero ler, assistir, ouvir...fico com os episódios do Chaves, pelo menos causam riso franco e não de desespero.
Sim, é um instrumento de democracia, mas a verdade é que apenas faz parte do show, porque poucos desses votos são conscientemente dados. E quando se vende votos por cesta básica, emprego para a família, ou uma caçamba de areia, não se pode imaginar que eles tenham a qualidade que deveriam.
O único mandato em que realmente acredito que pode ainda render frutos é o mais simples de todos: O governar da família. A base, o ensinamento de valores, de justiça, da sublime diferença entre o que é certo e o que é errado mesmo quando o certo não nos traga nenhuma vantagem. É ensinando que caráter e dignidade não são adjetivos, são o mínimo que se precisa para se ter uma vida integra.
O resto meu povo, infelizmente é conversa fiada.
Salve Renato Russo: Que país é esse?!

Então tá.



sábado, 20 de fevereiro de 2010

Doidas e Santas



segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Estreando na categoria Livro do Momento..
Criei esta categoria afim de divulgar o livro que estou lendo no momento, e falar um pouquinho sobre ele.
E nada melhor do que estrear, com ela que é uma das minhas autoras prediletas: Martha Medeiros.
Estou lendo neste momento Doidas e Santas, e minha opinião claro, é que é fabuloso.
Um livro que traz uma coletânea de Crônicas escritas por Marta no jornal Zero Hora.
Ela é claro, com seu humor sutil e peculiar, e sua sensibilidade aguçada, nos leva do riso escancarado às lágrimas incontidas. Amei.
Vale a Pena!
Besos

Salve Geral



No ultimo sábado tive a oportunidade de assistir ao filme Salve Geral, do diretor Sérgio Resende.
O filme retrata a onda de violência vivida em São Paulo em maio de 2006, onde a cidade sofrera inúmeras ações de violência que fez a maior cidade do país parar num toque de recolher determinado pelo PCC. Algo realmente sem precedentes, apesar de ser uma ameaça real, que sempre esteve ali embaixo de nosso nariz.
Como pano de fundo, a interpretação fantástica de Andréa Beltrão, que faz a mãe de um adolescente que por um “incidente” acaba matando sem querer uma jovem, e caindo da cova dos leões: a cadeia.
Assistindo ao filme é possível chegar a mais intragável e realista conclusão: Não é um relato do bem contra o mal, onde os super heróis da polícia salvarão os mocinhos(as) (a população) das mãos dos bandidos.
Há sim uma guerra de interesses particulares, uma guerra de egos inflados e de ambições ilimitadas. Uma guerra da pobreza inconformada com uma sociedade desigual, e que encontra por meios criminosos, a chance de ver algo acontecer.
Há uma ideologia por traz de cada um daqueles homens perigosos. A vontade de crer em algo, mesmo que o algo seja a violência. Há uma necessidade gritante de se fazer ouvir, de se sentir parte de uma sociedade, e quando essa não se dispõe a abrigá-los, cria-se uma com suas próprias leis. A sociedade do crime.
Na retrospectiva 2006 dos maiores jornais do país, figura a seguinte manchete: 16 de maio - Chega ao final a primeira onda de ataques a alvos policiais e civis em São Paulo. A Secretaria de Segurança Pública (SSP) anuncia os números finais da crise: foram 251 ataques, com 115 mortos e 115 suspeitos presos. Entre os mortos estão 32 policiais (civis e militares), 8 carcereiros, 4 civis e 71 suspeitos de fazerem parte da organização dos ataques.
Enquanto nas penitenciarias em rebelião, os presos ligados ao “partido” (é assim que é tratado o PCC por seus integrantes), bradam o lema decorado por todos: Paz, justiça e liberdade, a bomba relógio é ativada, deixando menos tempo para os “desavisados” cidadãos.
O “Salve” foi o nome dado ao o recado claro endereçado a 200 mil integrantes do partido espalhados pela cidade, e não deixava duvidas: A ordem era uma “festa” em cada bairro. Leia-se: Um atentado violento deveria ocorrer simultaneamente por toda a cidade. Os alvos eram principalmente policiais de todas as divisões. Além de shoppings, aeroportos e demais estabelecimentos que, sendo alvos de ataques, causassem um horror generalizado.
O motivo: A transferência do mais alto escalão do “partido” a uma prisão de segurança máxima, onde se supõe, estariam impedidos de continuar dando as ordens a seus “filiados”.
Mas algo em particular me chamou atenção no filme. Em uma das cenas, Chico (um dos chefões do PCC), já na penitenciária de segurança máxima, recebe a refeição em sua cela.
Cela esta, que comparada ao cubículo insalubre que dividia com mais um incontável numero de presos, podia ser considerada a suíte presidencial do Copacabana Palace.
A grosso modo, era um preso que vivia em condições sub humanas, numa cela fétida e superlotada, onde era necessário fazer rodízio com os demais para dormir, já que não lugar para todos. A bem da verdade não havia lugar nem para 1/3 deles.
Mas ele (assim como os demais), não admitiam trocar seus centímetros quadrados em suas celas, onde eram os poderosos, por um lugar com celas individuais, com colchões confortáveis e roupas limpas. Não.
E não admitiam justamente por serem ali, apenas mais um.
Nas detenções provisórias, onde manda quem tem “cargo” e obedece quem tem medo de morrer, eles eram os juízes, os algozes e os diretores da organização criminosa. Ênfase na “organização”, pois eis um exemplo de “sociedade” em que a organização impera e as leis são implacáveis: O PCC.
E esse poder não pode ser minimizado, já que foi por meio deste que se conseguiu parar e aterrorizar uma cidade do porte de São Paulo. Não é pouco, não é pra qualquer um.
No PCC não há desobediência, traição e roubo interno. Quando há, a mesma é paga com a vida.
E os julgamentos, ao contrário da justiça comum, não dependem de longas burocracias, de inquéritos intermináveis, de recursos que prorrogam decisões e alimentam a sensação de impunidade.
Não. Lá, os julgamentos são full time, e a pena de morte é legitima.
Dependem de um simples telefonema, que determina se o fulano em questão “sobe” (morre), ou se permanece tendo o direito de seguir do partido.
Encalacrado numa situação de terror generalizado, o secretário de justiça no filme, vai até a prisão “negociar” com os presos numa tentativa desesperada de tentar desativar a “bomba atômica” que pairava sobre a cidade. Não havia muitas opções. A opção era atender as exigências dos detentos, ou o que se veria nos dias seguintes seria um mar de sangue morte e destruição pelas ruas. Não houve jeito: Cederam. E “éticos” que são, os chefões do crime, deram a ordem de cessar fogo aos 200 mil “seguidores do partido” – número informado pelos mesmos.
Longe de mim, fazer apologia ao crime, mas às vezes penso que se a justiça observasse mais como funciona a organização do crime, poderia de lá tirar valiosas lições, inclusive de ética, pois ela há.
O nome do filme é Salve Geral, mas poderia bem ser um Salve-se Quem Puder, pois é somente o que nos resta.
Então tá.
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O Curioso caso de qualquer um de nós

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Essa semana depois de muitos depoimentos favoráveis, resolvi assistir o premiadíssimo O curioso caso de Benjamin Button, e realmente as indicações se confirmaram e o filme é realmente muito bom. Tanto na história, quanto na maneira sutil de falar das agruras daquele pobre cristão condenado a uma pena de morte pelo próprio organismo.
Mas em especial uma cena me chamou atenção. Nela é narrado como funciona na prática o dedo cirúrgico do destino em nossas vidas, e de como cada segundo pode fazer a diferença entre vida e morte, felicidade ou tragédia.
No início desta mesma semana, ao dirigir-me para o trabalho, houve um congestionamento incomum. Trânsito parado, sirenes ligadas, e movimentações estranhas.
Logo se descobriu que houve à frente um atropelamento. Uma moça de 25 anos morreu atropelada ao tentar fazer a travessia da BR 386, num dia de chuva, por 3 carros. Sim, 3 carros. O primeiro atropelou (o carro de uma empresa de segurança privada), e os outros dois chocaram-se a ela sem tempo de desvio. Morte instantânea, de uma jovem a caminho do trabalho.
Lá vem o dedo cirúrgico e preciso do destino.
E se ela tivesse se atrasado no banho? E se o relógio não tivesse despertado? E se ela tivesse esquecido o guarda-chuva e tivesse voltado para buscá-lo?
E se ela tivesse uma consulta médica e não pudesse ir trabalhar?
E se o carro que perdeu o controle e a atingiu, tivesse furado um pneu? E se o motorista tivesse parado antes para abastecer?
E se este mesmo motorista tivesse voltado do portão para dar um beijo na mulher que dormia serena em sua cama? E se o farol anterior estivesse fechado o atrasando alguns minutos. E se ele tivesse conseguido frear?
E se ele estivesse sido demitido no dia anterior e estivesse naquele instante, depois de uma noite em claro pensando no desemprego, dormindo pra recuperar o sono perdido?
Ele não estaria passando por ali. Ela teria completado a travessia.
Está escrito. Em algum lugar há de ter um final reservado e escrito especificamente para cada um de nós. Não há como fugir. Não temos um Dejavú que nos dê rotas alternativas.
Estamos onde estamos, porque temos que estar.
Não há recurso jurídico. Não há reprise do lance. Não há uma segunda chance.
Não há test drive pra ver se dará certo. Não há esboço antes do texto oficial.
Há o destino. Impecável e implacável.
Há a utopia de achar que só acontece com o outro.
E há o ato, o fato, o incontestável.
O fim. A única e mais abominável certeza que temos, acompanhado das certezas que inventamos todos os dias para fazer de conta que somos donos de nossos destinos.
Então ta!